Sexta-feira, 29 de Junho de 2007

 Mourisqueiros 2007

 

Muitos pintores  ( ou pseudopintores) têm-se dedicado á pintura das pitorescas imagens do S. João de Sobrado. A cor, o movimento, a alegria cativam qualquer um.

A estória de hoje ( E que fecha por este ano o ciclo das estóriasdaminhaterra sobre as bugiadas) relata uma peripécia ocorrida há vinte anos, num dia de s. joão e a propósito de uma pintura de um mourisqueiro.

A exposição de pintura estava aberta ao público na junta de freguesia, os sobradenses entravam e saíam para ver os quadros. Apenas um sobradense de mantinha expectante olhando uma imagem que retratava um mourisqueiro. Manteve-se assim algum tempo a comtemplar a imagem até que avistou um filho da terra conhecido e, por sua vez amigo do pintor.

- " Olha, ( chamou ele) anda cá, sabes eu estou aqui a olhar para isto, é o meu filho sabes, mas não dá bem para ver que é ele, eu tenho lá uma fotografia em casa, que até é maior um bocadinho que o quadro, e trazia-a para por aqui, é que no quadro não dá para ver bem que é ele".

Nunca foram trocadas as imagens, mas era uma ideia como outra qualquer.


tags:
sinto-me: artista
música: da caixa

publicado por estoriasdaminhaterra às 09:46
Quinta-feira, 28 de Junho de 2007

Almoço dos bugios 2007 - mesa do velho da bugiada

( actualmente são cerca de 600 bugios)

 

Outrora o almoço dos bugios ( e dos mouros também) tinha outro significado que hoje não tem, servia para matar a fome de muitos. Tempos houve em que a fartura era pouca ou nenhuma e ir de bugio significava, além de matar a paixão, matar a fome.

Numa conversa de bugios ( e amantes da festa), em vésperas de S. João e a discutir sobre tradições, contou um afamado bugio a seguinte estória:

 

"Antes não eram assim tantos bugios, eram 40, 50 bugios, o meu pai conta que um ano que andavam de bugio e que chegaram ao tacho, o dono ao ver tantos bugios veio avisar o velho a dizer que a comida devia ser pouca. Ele atão puxou a bugiada, fe-los andar p'ra frente e p'ra trás, p'ra cima e p'ra baixo até os queimar, quando entraram po tacho iam queimadinhos de sede, encharcaram-se de refresco e vinho e assim a comida chegava sempre."

 

Andavam de bugio - vestidos de bugio

Tacho- almoço

puxou a bugiada - esforçou-os fisicamente, o velho vai à frente e " puxa" comanda a bugiada que o segue

Queimar/ queimadinhos - cansados, exaustos;


sinto-me: com fome
música: a dos talheres a bater na louça

publicado por estoriasdaminhaterra às 09:36
Quarta-feira, 27 de Junho de 2007

Depois da pausa de uma semana ( por motivos ligados à festa de S. joão) regresso com as estórias. A estória de hoje, ainda relacionada com o S. João, trás junto com ela o orgulho de ser sobradense e a saudade da festa que se acabou ( por este ano). Só quem é Sobradense compreende esta sensação de vazio que nos invade depois de terminada a festa. Bem mas deixando os saudosismos de parte, cá vai a estória.

Os advogados são umas figuras caricatas da festa. Vestidos a rigor ( cartola, máscara, labita e calça branca no caso do advogado bugio, ou preta no caso mourisco) fazem-se acompanhar por um livro de leis ( antigos livros de calotes das mercearias nos quais são cuidadosamente coladas imagens de "donzelas" com poucos trajes) e uma bengala ou pau.

Quando no castelo bugio vão discutindo entre si e tentando fazer valer a sua lei, batendo com a bengala/ pau no livro. Ora acontece que numa dessas vezes o advogado ( ou porque estava sem óculos, ou porque estava " quente") erra o alvo e em vez de bater no livro, bate na unha do polegar ( tirando a unha). Não se dá por achado, olha o serviço e dirige-se ao público que o olha estupefacto dizendo:

- Esta já está... , continuando o discurso como se nada tivesse acontecido.

 

 


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sinto-me: saudosa
música: saudade

publicado por estoriasdaminhaterra às 09:45
Terça-feira, 19 de Junho de 2007

(1)

 

Hoje em dia são proibidas mas tempos houve em que um dos momentos mais áureos das noitadas  eram as vacas de fogo. Consistiam numa armação zoomórfica ( que se assemelhava a uma vaquinha) em cujas costas eram colocadas fogo de artíficio. Por dentro a acivar o fogo o "técnico" de pirotecnia. As pessoas, essas aos magotes a ver a vaca de fogo. Uma boa vaca de fogo representava uma boa noitada.

Mas, num ano mais ou menos longínquo, chegada a hora de lançar a vaca de fogo, os pirotécnicos buscá-la ao sitio onde estava guardada e não a encontram. Onde está onde não está, vaca de " grilo". O povo começa a impacientar-se mas de nada lhes adianta, a vaca desapareceu e só haveria de aparecer um dia depois num campo ( na agra da costa julgo), a pastar...

Dizem por aí que foram uns " artistas" que não acharam justo a bichinha estar em jejum...

 

 

(1) a vaca não corresponde à vaca de fogo mas achei a imagem pitoresca


sinto-me: eheheh

publicado por estoriasdaminhaterra às 09:29
Segunda-feira, 18 de Junho de 2007

Cá está mais uma pérola das estórias sobradenses versus bugiada, contou-ma uma das minhas fontes este fim de semana, cabendo-me agora a mim recontá-la.

Como é sabido os bugios são foliões, havendo alguns que gostam da pinga. A estória de hoje narra uma relação " amorosa" de um patrício meu com as duas ( pinga e bugiada).

Ora na véspera de S. joão há habitualmente noitada na terra ( com um cantor da moda, normalmente) Mas, nem só de cantores se fazem  noitadas, a pinga e as petiscadas também são uma componente importante. Assim sendo, o sobradense começa a provar a pinga  como que por brincadeira, mas a brincadeira aquece e... dá para o torto ( no verdadeiro sentido da palavra).

O incauto sobradense apanha uma carraspana descomunal. Resultado, chegado ao lar dorme a sono solto durante o resto da noite e todo o dia de s. João, só acordando no dia 25 por volta das 10 da manhã. Não tem mais, meio estremunhado, olha para o relógio, salta da cama veste a farda e sai de lanço para Campelo ( que já não era nada cedo). Chegado ao centro da vila e não vendo nenhuma movimentação ( nem cristã nem moura) profere a frase que ficaria para todo o sempre na história sobradense passando gerações e gerações e perpetuando-se no tempo - " Ohohohoho são que horas e eles sem vir!"... 

 

 


sinto-me: era da boa
música: sem música

publicado por estoriasdaminhaterra às 10:09
Sexta-feira, 15 de Junho de 2007

Saudações blogueiras,

Ao fim de quase quatro meses de estórias, dois destaques e um prémio (!), lanço mais uma vez o apelo ,enviem estórias que conheçam para o e-mail storiasdaminhaterra@sapo.pt afim de serem publicadas no blogue. As estórias enviadas devem ser obrigatoriamente sobre Sobrado, ou pessoas de Sobrado. Bem haja e boas estórias...



publicado por estoriasdaminhaterra às 10:22
Quinta-feira, 14 de Junho de 2007

O S. João de Sobrado é uma festa masculina, não há dúvidas quanto a isso. De mourisqueiros só vão homens, e de bugio embora algumas mulheres enverguem a farda ( principalmente depois do 25 de abril), nenhuma jamais ocupou lugar de destaque.

Bem, nenhuma nenhuma, não é bem assim, porque segundo se diz ( um bocado em segredo)  já houve uma mulher que num dia 24 de Junho comandou as tropas cristãs vestida de velho da bugiada.

A "personagem" era uma filha de um conceituado velho da bugiada, que como sobradense que se preze tinha uma incondicional paixão pela festa. E dançava bem ao que parece ( sim porque para se ir de velho é preciso saber dançar - Bem de preferência).

Tinha era um desgosto, o de nunca poder ir de velho da bugiada. O pai, sabedor, satisfez-lhe o desejo, em ano que foi de velho, na dança em casa do velho, trocaram papeis.

O pai saiu de manhã cedo apenas de calças brancas e uma camisola a cumprimentar as tropas ( de modo a que ninguém suspeita-se do engodo), entrou para supostamente se vestir, mas não se vestiu. A filha vestiu então a roupa do pai, e saiu mascarada, realizou a dança com especial primor e dançou ( segundo dizem) como nunca antes ninguém viu. Coisa bonita de se ver, dizia-se. Só deram pela tramoia quando apareceu o pai à janela a rir-se da cena...

Matou-se a assim negra à rapariga e ficou a estória de uma dança dançada não por um velho mas sim por uma velha da bugiada. E Esta hein!?

 

 


sinto-me: a contar um semi segredo
música: rabecas e violinos

publicado por estoriasdaminhaterra às 15:10
Quarta-feira, 13 de Junho de 2007

Esta já foi contada noutro blogue ( http://bugiosemourisqueiros.blogspot.com/), muito provavelmente por termos as mesmas fontes ( porque temos, algumas pelo menos), bem, não interessa vou contá-la à mesma ( até porque temos alguns leitores diferentes). Aqui vai.

Ao que parece à cerca de 50 anos, em Sobrado foram chamadas duas bandas para tocarem no S. João. A tradicional banda de S. Martinho de Campo e a conceituada Banda de Vilela. A festa prometia ser de arromba. Na distribuição do "trabalho" pelas duas bandas calhou à banda de Vilela acompanhar os bugios na dança de entrada enquanto a de Campo acompanharia os mourisqueiros.

Começa a banda de Campo a tocar a marcha da dança de entrada e os mouros a dançarem rua abaixo até à igreja.

Os bugios ordenam-se, e a banda de Vilela também. Começam a tocar. Bugios parados. Tocam com mais afinco, nada feito os bugios nem se mexiam. Ao que parece a banda de Vilela não tocava a marcha como devia ser, e assim os bugios não dançavam. O remédio foi mesmo virem chamar às pressas a banda de Campo para tocar a marcha, enquanto a banda de Vilela se recolheu de orelhinha baixa ao coreto, passando por lá todo o dia.

Que se saiba nunca mais houveram duas bandas a actuar em Sobrado, diz-se por aí que a banda de Campo dá-lhe uns acordes " secretos" á música....


sinto-me: muahahahahahahah
música: pópoopopopopo - banda de campo

publicado por estoriasdaminhaterra às 09:27
Terça-feira, 12 de Junho de 2007

A estória de hoje tem algumas semelhanças com uma outra que contei há tempos.Mais uma vez a paixão incondicional dos sobradenses pela bugiada.

A esposa de um bugio ( dos doentes) havia falecido uma semana antes do s. João. Fez-se o enterro e deu-se inicio ao luto. Mas o dia de s. joão aproximava-se e o bicinho da paixão começou a mexer no viuvo.

Dia de S. João. Pela freguesia ouvem-se os foguetes e os guizos dos bugios que rumam a casa o velho. O viuvo começa a impacientar-se ao ouvir e ver os seus camaradas passarem. Vem à janela, uma, duas, três vezes, os vizinhos estão a topá-lo ( conhecedores da sua paixão pela bugiada)... Que diacho... Como haveria de resistir à paixão!?

Esperou até meio da manhã, não aguentou mais. Vestiu a farda, a careta e o chapeú, olhou-se ao espelho e dirigiu-se a uma porta traseira. Sorreiteiramente tentou esgueirar-se sem que os vizinhos o vissem. Sem resultado. Quando estava quase " safo", um vizinho mais atento espeta-lhe a pergunta " Então fulano já vais!?".

Como uma criança apanhada a roubar, o bugio vira-se e em jeito matreiro responde:

- Já ela já 'tá p'ra(1) lá à oito dias, agora vou p'ra lá também! seguindo caminho para matar a negra(2).

 

 

(1) O já estar para lá refere-se ao cemitério da vila( onde a mulher estava enterrada), que fica no centro e junto ao local onde se desenvolve a festa, obviamente o bugio nao ia para o cemitério mas sim para a festa ( lugar de Campelo).

 

(2) Matar a negra, não, não é uma expressão racista, matar a negra significa matar a paixão, a paixão é negra , a paixão é muita. È uma expressão muito utilizada em Sobrado, normalamente ligada á festa de S. João.

 


sinto-me: humor negro
música: Musica da paixão - banda de campo

publicado por estoriasdaminhaterra às 12:24
Segunda-feira, 11 de Junho de 2007

Quatro domingos antes do grande dia realizam-se no passal os ensaios. A única altura em que os bugios dançam de cara descoberta ( daí a oportunidade de se ver quem tem jeito para a coisa ou não). O som das rabecas e dos violinos dá o mote e o velho comanda( umas vezes melhor outras assim assim). É hora de se mostrar o que vale na primeira vez que se encara o público.

Mas, nos últimos anos os ensaios não são a primeira vez que o velho da bugiada se mostra aos olhares críticos de quem vê. Lá pelo mês de Maio costumam realizar-se, à porta fechada, uns pré ensaios afim de se limarem algumas arestas. È uma prática recente. Ou melhor pensava-se que era uma prática recente. Afinal não é. Conta um bugio que lhe contava o pai que um certo velho da bugiada ( conceituado na terra), também fazia os ensaios à porta fechada.

O local escolhido era a eira lá de casa. Companheiros de ensaio, apenas os guias que lhe assobiavam a música ( não haviam cassetes nem cd's) e de rabos... bem não sei bem como vos pinte a cena, mas diz-se que eram dois molhos de palha... Afinal, dizia o bugio que contou a estória, para rabo qualquer coisa serve...


sinto-me: cena de filme...
música: assobiada por quem sabe

publicado por estoriasdaminhaterra às 11:13
O blogue estoriasdaminhaterra recolhe estórias da tradição oral sobradense bem como factos da vida comum de uma pequena vila dos arredores do Porto...
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