Terça-feira, 31 de Julho de 2007

Quase todos senão mesmo todos os sobradenses já tiveram de fazer alguma visita ao Hospital S. João no Porto. A estória que hoje conto, narra a técnica de uma sobradense para agilizar o atendimento hospitalar.

Sentada na sala de espera do hospital, a sobradense desesperava por ouvir o seu nome.

Foi colmatando o desespero conversando com uma outra conterrânea, na ânsia que dessa forma a espera se abreviasse. Nada feito, as horas foram-se somando umas às outras e nada de serem chamadas. A primeira toma então uma atitude, levanta-se e diz para a outra, queres ver como vou entrar já? De uma assentada, despenteia-se, revira os olhos, começa a ofegar e em altos berros " ai meus Deus ai, ai ai que eu não sei que tenho, ai que eu morro, ai meu Deus, quem me acode!? Resultado, entra imediatamente e é atendida. Ao sair e ao ver a colega de espera ainda no mesmo sítio atira-lhe um sorriso e diz " Estás a ver eu já vou, fazias como eu..."

 


sinto-me: mal
música: as das salas de espera

publicado por estoriasdaminhaterra às 16:19
Sexta-feira, 27 de Julho de 2007

Bem hoje vou escrever uma estória  mais calminha. Assim para relaxar e acalmar os ânimos . Aqui vai. 

Era comum as freguesias vizinhas correrem-se à pedrada, era uma maneira pouco carinhosa de se indicar aos vizinhos o caminho para casa, mas era usual.

Assim, certa noite, estando programado indicar o caminho aos de Balselhas , os sobradenses fizeram-lhes a dita espera. Azar, a coisa deu para o torto e acabou por se virar o feitiço contra o feitiçeiro , os sobradenses começaram a ser corridos à pedrada. Separam-se, cada um por si, e Deus nosso senhor por todos. Um dos Sobradenses , atira-se a correr pelo meio da cortinha dos Espinheira, tentando a todo o custo deixar de ser alvo dos de Balselhas . Nada feito, vê-se perdido, em desespero de causa e a encoberto da noite joga a sua última cartada. Vira-se para o grupo perseguidor e saca da chave de casa ( que era enorme)e aponta-a ao grupo dizendo a alto e bom som:

- Parai ou rebento-vos a todos!

Golpe de mestre. Fugiram todos, ficou o sobradense com o lombo safo e uma estória para contar.


sinto-me: o que tu queres sei eu
música: Pedra no charco

publicado por estoriasdaminhaterra às 10:43
Quinta-feira, 26 de Julho de 2007

 

Assinalo hoje o post número 75 ( bodas de diamante portanto), já muitas estórias e comentários correram pelo blogue que começou por ser um hobby para atenuar as saudades de casa mas rapidamente se tornou um vício. Agradeço assim, desta forma a todos aqueles que durante meses me apoiaram ( fornecendo material de escrita) e a todos aqueles que tiveram a paciência de o ler e de o comentar. Assim, e dando fim a esta estória de agradecimentos e comemorações resta-me continuar a minha empreitada e esperar que tenha material para mais 75 estórias .

Hoje relato a estória da junta de freguesia de Sobrado. Um feito que merece com toda a certeza o destaque da estória número 75. Cá vai.

O edifício da junta de freguesia é relativamente recente, antigamente a junta funcionava num casebre junto à escola Eb 1º de Campelo, um remedeio triste segundo dizem. Depois do 25 de Abril de 74, e com os ventos de mudança que varriam o país, arranjou-se dinheiro para fazer a junta nova. Local escolhido, o centro. E onde é o centro, no passal. Na segunda feira de Santa Justa veio a máquina fazer o buraco no sítio onde iria nascer a nova junta ( mais ou menos no cimo do actual jardim). Buraco feito, toca o sino a rebate a chamar o povo. E o povo lá vem, manifestando-se quanto ao local escolhido para fazer a junta de freguesia, que estragaria o passal, que não tinha jeito nenhum...

Resultado, o buraco foi aberto de manhã mas fechado à tarde, o povo não deixou que se construísse a junta no passal.

A junta acabou por ser construída em frente ao passal ( no lado oposto ao sítio onde estava previsto da primeira vez), num terreno cedido por uma sobradense , anos depois de o sino ter tocado a rebate.  


sinto-me: Tesos...
música: A do sino

publicado por estoriasdaminhaterra às 10:34
Terça-feira, 24 de Julho de 2007

Sobrado é deveras uma terra rica, até mesmo um Visconde temos, embora de título comprado e não, como muitos dizem, de descendência real, ou vulgo, de sangue azul.

A estória de hoje é mais uma do Ti Zé espinheira, desta feita a propósito do Visconde de Paço.

 

(...)O Visconde de paço era um sobradense que veio do Brasil rico em mil oitocentos e tal e  comprou o título de Visconde. Fez aquela casa em paço, que tem o brasão do visconde. (...) Não era descendente do rei, mas quando morreu o duque de Bragança ainda cobriram o brasão com um pano preto, de luto. (...)

 



publicado por estoriasdaminhaterra às 15:05
Sexta-feira, 20 de Julho de 2007

As estoriasdaminhaterra têm estado em falta com um tema que normalmente é fruto de muitas histórias nas terras, os padres. Nesse sentido, e na tentativa de colmatar essa lacuna, cá fica uma, de um padre que exerceu votos em Sobrado há mais de cinquenta anos.

Tinha fama de repentino, o padre Barbosa, nunca deixava créditos por mãos alheias e creio que foi isso que levou o senhor abade a tomar medida tão estrema com um sobradense .

Era verão e as criadas do padre andavam a lavar roupa num rego de água. Nada de mais, não aparecesse um lavrador que entendeu que as moças lhe estavam a desperdiçar a água. As raparigas, regressaram à casa paroquial e queixaram-se ao abade. O padre Barbosa não tem mais, vai de encontro ao invejoso sobradense , rego da água acima. Quando o encontrou, agarra-lhe o cachaço e "espeta-lhe" a cabeça no rego da água.

Glugluglu , ai sr . abade, glugluglu , dizia o sobradense .

De nada lhe adiantou, porque a penitência do Sr. abade Barbosa estava cumprida para quem ousasse cruzar o seu caminho ( troçada na certa).

Talvez fosse por essas e por outras que certa noite lhe puseram à porta de casa a "faca e alguidar". Só não se sabe se chegou a entender o aviso..



publicado por estoriasdaminhaterra às 20:11
Quarta-feira, 18 de Julho de 2007

O T'i Zé Espinheira, o primeiro da esquerda para a direita - foto do blogue http://bugiosemourisqueiros.blogspot.com/2006_08_01_archive.html

 

Ainda me lembro do T'i Zé Espinheira, era vizinho do meu avô, faleceu quando eu tinha uns 3/4 anos. Mas ainda guardo uma memória bem viva dele. Tocava violino e apesar de ter pouca instrução académica era extremamente culto. De estatura baixa, magro, enrugado mas tinha uns olhos bem vivos, próprio de quem viu e viveu muito.

Há cerca de 20 anos foi gravada uma conversa com ele para a posterioridade, numa cassete, a cassete andava meia perdida no meio de apontamentos, foi (re)encontrada por mim há cerca de três semanas. Transcrevi a conversa entre o Ti Zé, o neto Tozé, um filho e o meu pai ( estes últimos uma espécie de "jornalistas") . Nesse sentido, aproveito o blogue para as escrever e relembrar os ditos do Ti Zé Espinheira.

 

D. Pedro vs D. Miguel

 

A propósito das lutas liberais...

 

(...)"D. Pedro estava acampado nas constanças e os de D. Miguel estavam para além da agra ( sopé do monte da Boavista). Quando os Portela fizeram ali a casa na aldeia de Ferreira ainda encontraram umas ossadas. Cá em Sobrado estava o D. Miguel.

Uma vez o D. Pedro perguntou a uma mulher se Viva D. Pedro e ela respondeu:

Viva D. Pedro e D. Miguel que vieram os dois do mesmo tonel

A mulher era miguelista e assim não se comprometeu com nenhuma parte. São ditos.

(...) Em Sobrado eram mais liberais, o povo apelava a D Pedro (...)"


sinto-me: salteadora da cassete perdida
música: a da cassete velhinha

publicado por estoriasdaminhaterra às 09:25
Terça-feira, 17 de Julho de 2007

Quem entra em Sobrado é logo confrontado com um  verdejante vale, rico em água, em árvores e em cultivo agrícola ( este último já foi mais rico do que é hoje). Os pomares e as árvores de fruto nos quintais contíguos às casas também são uma constante. É sobre uma dessas árvores que surge a estória de hoje - a pereira.

Havia um lavrador no lugar de Ferreira conhecido por ser amante de pregar partidas. Naquele tempo a fartura por muitas casas sobradenses era pouca ou nenhuma pelo que, era comum a malta mais jovem tentar colmatar essa falta de substância provando do que a natureza dava ( fruta) no quintal dos mais abastados.

Era comum os donos montarem guarda às hortas na esperança de dissuadirem estes " melros". Por vezes, faziam-lhes verdadeiras "caçadas" por esses baldios e cortinhas. O Ti' Tone , cabo de ordens, não era desses. Gostava mais de pregar partidas aos infractores. Assim durante o dia colocava meticulosamente pedras nos canos da pereira lá de casa, esperando depois, durante a noite o invasor. E era um mimo ver os " artistas" a abanar a pereira na esperança de que lhes caíssem algumas pêras cheirosas e fugirem a sete pés quando em vez de pêras lhes caíam pedras da calçada duras e sem qualquer tipo de substância a não ser algum galo na cabeça.

O dono obviamente apreciava a cena enquanto se ria dos desgraçados e das duras "pêras" que a sua pereira dava aos " gatunos".


tags:
sinto-me: autch calhau
música: são pedras meus senhores

publicado por estoriasdaminhaterra às 12:16
Sexta-feira, 13 de Julho de 2007

Isto das rivalidades entre terras tem muito que se lhe diga. Sobrado e Gandra, como já referi em posts anteriores são inimigos de estimação, cultivando essa amizade ao longo de séculos através de carinhosas estórias depreciativas da inteligência da freguesia rival. Normalmente, as estórias são sempre as mesmas em ambas as terras, só mudando os protagonistas consoante quem as conta. Obviamente que as conto à moda de Sobrado ( não fosse eu sobradense!), puxando sempre a brasa à minha sardinha.

 

Os de Gandra gabavam-se muito do sino da torre sineira da igreja de Gandra, que tocava como nunca se ouvira nas redondezas, que tomaram os sobradenses ter um assim...

Ora acontece que, certo dia os sobradenses decidiram pregar uma partida aos de gandra e testar de facto de o sino era mesmo bom. Assim, á socapa pela noitinha ataram um fardo de palha ao cordel do badalo e puseram-se à coca. Nisto aparece um burrito que, ao ver tão lauto banquete, não se dá por achado e começa a tirar-lhe a prova. Coisa nunca antes vista, porque de cada vez que o burro tirava um bocado do molho de palha o sino tocava. Tendo o bicho achado a palha sobradense de tão boa qualidade, começou a comer com mais afinco, intensificando as batidas do sino, de tal maneira que, quem ouvia parecia o sino a tocar a rebate, chamando o povo. E o povo lá foi, a meio da noite, ainda meio ensonado ver o que se passava, acorrendo em largas passadas à igreja de Gandra. O que foi, o que não foi, o burro que comia a palha, e os sobradenses que encondidos se riam como perdidos com tão caricata cena. Não havia dúvidas, o sino tocava bem.


sinto-me: ups
música: a do sino a tocar

publicado por estoriasdaminhaterra às 15:04
Quinta-feira, 12 de Julho de 2007

Cresci no meio de pipas (vazias). O meu avô acumulava nas suas funções de carpinteiro as práticas de tanoeiro da terra. Era com enorme satisfação que, quando garota me sentava nalgum pipo pequeno e ( obrigando-o a fazer uma pausa nas suas lides) ouvia as suas estórias. Tinha, e tenho, especial adoração por uma de um gago, que passo a contar.

Havia um lavrador da terra que tinha como moço, um rapazote gago. O facto nunca interferiu muito nas actividades agrícolas, até porque o rapaz utilizava mais os braços que a boca. Não obstante, um dia, vindo patrão, moço, duas vacas , o carro e uma pipa em cima, a pipa começou a perder vinho. O moço que seguia o carro de bois, ao ver a cena, aflito tenta chamar o patrão que seguia junto das vacas, nada feito a voz não saía. Tenta de novo, e outra vez, e mais uma e nada até que, quando a pipa já ia quase a meio consegue finalmente dizer " E-e-e cá ohohohoho pa-pa-pa-pa-trão a pi-pi-pi-pa vai a-a-a-a dei-dei-dei-tar!", dito isto o patrão irado espeta-lhe um safanão e pergunta porque não o avisou mais cedo, que cantasse quando fosse assim, ao que rapidamente o gago começa em alegre sinfonia o cantarol " Oh patrão a pipa vai a deitar , Oh patrão a pipa vai a deitar...".

Da cara do patrão, não sei como vos pinte, mas parece que não achou piada ao cantarol. 


sinto-me: piadética
música: A pipa vai a deitar

publicado por estoriasdaminhaterra às 10:56
Terça-feira, 10 de Julho de 2007

 

Creio que a esta altura já se devem ter apercebido que os sobradenses gostam de comer. Já não é a primeira nem a segunda estória que conto a relatar esta enorme paixão sobradense pelos repastos. Por conseguinte, e para não fugir muito à regra, cá fica outra estória sobre comezainas.

Novamente narro mais uma estória de personagens recorrentes nas estórias da minha terra ( os mesmos da comida para seis). O cenário é o mesmo, um tasco no Porto, a postura similar, a de comer muito.

Chegados a um tasco do Porto, os dois amigos trataram de arranjar onde reconfortar o estômago da viagem e retemperar forças. Local escolhido, um afamado tasco portuense famoso pelos seus galos. Encomendaram um galo da casa para o almoço que vorazmente " botaram p'o bandulho". A moça que os servira, no final do repasto veio perguntar se o galo estava do agrado dos senhores, ao que rapidamente o sobradense respondeu:

Olhe menina, não andará por aí o paizinho deste?

 

Botaram p'o bandulho - comeram


sinto-me: "enfartada"

publicado por estoriasdaminhaterra às 10:30
O blogue estoriasdaminhaterra recolhe estórias da tradição oral sobradense bem como factos da vida comum de uma pequena vila dos arredores do Porto...
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