Segunda-feira, 09 de Julho de 2007

As tertúlias familiares são sempre boas fontes de estórias. Como bons portugueses que somos a " coisa" começa sempre á mesa entre garfadas e boas gargalhadas. Falasse de tudo mas o rumo da conversa é sempre o mesmo, os costumes, as estórias e as aventuras sobradenses. O meu avô gere a conversa e vai abrindo o seu album de memórias enquanto os ouvintes o ouvem atentos e se riem das suas rocambolescas estórias.

São estes encontros familiares e a minha curiosidade que vão dando " combustivel " ao blogue, que o meu avô carinhosamente chama " as nossas estórias lá da intranet" e que também vai alimentando semanalmente.

Hoje a estória não fala de aventuras mas sim de hábitos rurais, retrata uma sociedade antiga e os seus costumes, que emtretanto se vão perdendo nos caminhos da história.

Conta o meu avô, a propósito dos incêndios, que antigamente os montes não estavam assim cheios de mato. Quem não tinha terras, tratava de se levantar cedinho e ir ao monte ( nem sempre perto) ao mato para o gado, os montes estavam sempre limpos pelo que arranjar mato não era uma tarefa fácil.

Dizia ele que, não raras vezes se levantava ( garoto ainda) com o pai, de madrugada para ir ao mato. Saiam ainda noite escura, com uma ténue candeia a alumiar o carreiro. Chegados ao local, noite escura ainda muitas das vezes, tratavam de fazer uma fogueira e esperar que amanhecesse para começar a trabalhar.

Se fosse hoje, rematava ele tinhamos cometido não sei quantos crimes, mas antigamente a regra era essa, pouca fartura na panela e muito trabalhinho no lombo.

 

 


sinto-me: o tempo que passa

publicado por estoriasdaminhaterra às 10:24
Sexta-feira, 06 de Julho de 2007

 

A estória de hoje que tem quase tanto de cómica como de dramática, teve como " lembrança" um post de uma outra blogueira http://daplanicie.blogs.sapo.pt/ que tenho por hábito ler. Ora andando eu nestas lides blogueiras dou com o post da minha " colega" sobre violência doméstica. O post sério e actual remeteu-me de imediato para uma estória da minha terra, digna de registo e que toca ( de leve ) o tema. Nesse sentido, cá fica a dita estória, que muitos risinhos arranca quando é contada e que aborda um tema sério e preocupante do modo característico português- com critíca galhofeira.

 

O Zé era uma figura típica cá da terra. Tinha a fama de ser fanfarrão cá por fora mas em casa quem mandava era a mulher, sendo que não raras vezes esta acertava-lhe o passo.

Tendo certo dia, por artes do mafarrico, ter chegado a casa já bem comido e bem bebido, a mulher põe-lhe uma malga de carldo à frente, para a janta. Ele vira d'um lado, vira d'outro e não havia meio de comer. A mulher começa a ficar irritada com tanta moléstia e avisa-o:

 0u comes a bem ou comes a mal, carai!

 Ele encolhe os ombros e continua a dança com o carldo, sem o comer. A mulher farta de tanto faz que come, enervasse e chega-lhe a roupa ao pêlo.

Resultado da cena , vai-se lá saber como, a peripécia chega aos ouvidos do povo, que depois, como quem não quer, gozava de escarninho:

- Oh Zé então elas caíram-te!?

Ao que o pobre respondia, com tom fanfarrão:

- Levar levei mas comer não comi!

 

Carldo - calão sobradense referente a caldo, sopa;

Janta - Calão Sobradense referente a jantar; refeição;

Acertar o passo / Chegar a roupa ao pêlo - bater

 


sinto-me: Toma que já almoças-te
música: oh Jesus - Cabeças no ar

publicado por estoriasdaminhaterra às 10:55
Quinta-feira, 05 de Julho de 2007

Aqui está uma estória familiar. Acredito que como já se passaram muitos anos, já não há grande perigo de ferir susceptibilidades familiares e a estória é mesmo merecedora de registo.

O meu bisavô era um homem de fibra, daqueles que olhamos e temos instintivamente respeito e orgulho ( no caso familiar).

Era recto e duro, e nem mesmo no leito da morte deixou os seus princípios e teimosias de lado.

Gostava de comer ( carne de porco preferencialmente) e beber bem, e nem mesmo quando um médico o advertiu para a necessidade de fazer uma dieta, sob pena de se não a cumprisse não era homem para muito tempo, não se deu por achado respondendo-lhe prontamente " Morra marto morra farto", ou seja morrer por morrer, morrer satisfeito.

Com efeito nunca fez a dita dieta, e a advertência que  o médico lhe tinha feito não tardou em chegar. Começou a quebrar e acabou na cama. Sentindo que os seus dias estavam próximos do fim, informou ainda que gostaria de provar um porquito que estava na corte. Fez-se a vontade ao pai. Marcou-se a matança do bicho. Á noite a filha preparou-lhe uma fevera para o pai provar o dito animal. Mastigou, mastigou e acabou por a deitar no prato sem a conseguir engolir dizendo com as forças que lhe restavam:

- Isto já não passa, mas um copito ainda vai! Bebendo-o de seguida.

Durante a noite, faleceu, satisfeito.


sinto-me: baú das estórias familiares

publicado por estoriasdaminhaterra às 11:01
Quarta-feira, 04 de Julho de 2007

 

Muitas vezes ao relembrar as estórias que me contam da terra dou comigo a entrar num reino maravilhoso, como se a terra e os seus habitantes não existissem senão em estórias, e as peripécias de umas gentes tão peculiares como os sobradenses fossem desenhadas pelas palavras de um contador de histórias experiente e que sabe bem como cativar os seus leitores ( um pouco ao jeito de Garcia Marquez no seu livro " Cem anos de solidão" que retrata a saga da família Buendía). Bem, Sobrado não tem um Garcia Marquez para escrever, nem uns Buendía para protagonistas mas tem, por outro lado tantas estórias que davam para escrever um livro. E um daqueles com muitas folhas.

A "narrativa" de hoje ( já bem encabeçada com uma introdução como manda o figurino!) conta mais uma viagem de dois sobradenses ( moços na altura, hoje já bem maduros) ao Porto. Motivo de festa  e de encher a pança como devia ser.

A ida decorreu normalmente. De manhã cedo, porque de manhã começa o dia, e Deus ajuda quem cedo madruga. Chegados à invicta, trataram de arranjar onde comer. Um tasco manhoso que um dos amigos conhecia. Chegados ao local, trataram de encomendar a comida. Para seis. Os restantes estavam a " trabalhar" mas ao meio dia viriam comer.

Chega a hora do almoço. Apresentam-se os dois amigos para almoçar. A servente, indignada por só virem dois, pergunta pelos colegas, e se queriam que servisse já a refeição.

- Ah eles vêm aí, vá trazendo a comida, que eles vêm aí.

A rapariga assim fez. foi trazendo a comida de dois, de três de quatro, de cinco de seis... e os outros quatro sem aparecerem.

Os dois sobradenses, ciosos, trataram de não deixar a comida arrefecer na travessa, comendo-a com voraz apetite. Os outros quatro, nem vê-los.

- Ah eles não se perdem, e nós cá também não nos havemos de perder. - diziam os dois amigos cada vez que a rapariga trazia mais uma travessa e perguntava pelos restantes " comedores".

Chegados ao balcão, bem comidos e bem bebidos, trataram de pagar. Á cabeça obviamente que não estavam para manter pançudos...

 

 


música: sou um mestre da culinária
sinto-me: campónia

publicado por estoriasdaminhaterra às 11:03
Terça-feira, 03 de Julho de 2007

O ritual da matança do porco ainda se usa por terras sobradenses. Escolhe-se um dia de preferência frio e tratasse de limpar o sebo ao bicho. O dia seguinte, por norma é dia de repasto. Papas de serrabulho. Consiste " essencialmente"  numa " malga" de papas temperadas com cominhos, seguidas do picado ( sangue, figado e bucho do porco) acompanhado com arroz, terminando com rojões. Tudo isto, claro está, regado com bom vinho e muita alegria.

A estória de hoje relata o final do dia de uma matança e o modo singelo como se aviaram umas poucas de feveras ao defunto porco.

Terminadas as lides da matança ( já noite dentro) o ratinho começava a roer o estomago do matador. O patrão sabedor do apetite do homem diz á mulher para fritar umas feveras para o matador, e encaminha-o para a cozinha.

A mulher começa a fritar as feveras e o matador a comer e a beber. A mulher frita ele come, frita come, frita come... até já não mais haverem feveras do porquinho.

Resultado o matador " aviou" as feveras do porco todas. Claro está que logo foi motivo de chacota na terra, era comum lhe perguntarem " Então fulano, foste matar o porco e comeste as feveras todas!?", ao que ele pausadamente respondia, disfarçando um sorriso cumplice, " A mulher não as parava de fritar...".

É caso para dizer mais vale manter um burro a pão de ló...


sinto-me: de barriga cheia
música: Sou um mestre da culinária

publicado por estoriasdaminhaterra às 09:46
Segunda-feira, 02 de Julho de 2007

Regressei às estórias habituais, deixo o S. João uns meses de parte para voltar a escrever sobre acontecimentos " banais" da terra.

Rebuscando no meu baú das "estórias da minha terra" lá encontrei outra digna do titulo de " pérola sobradense", mais uma vez, uma personagem recorrente nestas lides, o grande Serafim do bairro.

Mas passemos á estória sem mais demoras que o tempo urge e as batatas crescem.

Estando o Serafim sentado à sombra de uma videira e a observar um pequeno batatal que havia plantado no quintal de casa, começa a ver um movimento estranho no batatal. Aparentemente uma toupeira lavrava a terra. De rompante levanta-se e procura uma sachola para " tirar a tosse" a tão aplicada trabalhadora. Chegado ao local, dá com a sachola em cheio no sitio onde a terra levantava, mas qual é o seu espanto ao não ver a toupeira mas sim uma bonita batata. O que era o que não era, eram as batatas a crescer no quintal que até levantavam a terra, fazendo o mais incautos observadores pensarem que se tratava de uma toupeira a lavrar...


sinto-me: Agricultora

publicado por estoriasdaminhaterra às 11:58
O blogue estoriasdaminhaterra recolhe estórias da tradição oral sobradense bem como factos da vida comum de uma pequena vila dos arredores do Porto...
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