Segunda-feira, 24 de Setembro de 2007

Faça chuva ou faça sol, as terças feiras sobradenses são sempre dia de feira no largo do passal. Os feirantes começam a chegar por volta das 6,30 da manhã permanecendo no local, muitas vezes, até o sol se por. Um dos segredos de montar a " barraca" é deixa-la bem presa, impedindo assim que , independentemente do Zéfiro que soprar a barraca se desprenda do solo. Foi com esse intuito, o de prender bem a barraca, que um dos feirantes amarrou uma corda da barraca ao pescoço de um busto existente no passal. Os sobradenses que se passeavam pela feira, aperceberam-se da marosca e rapidamente começaram o protesto contra o feirante. Que estava, aos olhos sobradenses a enforcar o Sr. . abade, tão querido à terra sem dó nem piedade.

" Olha onde j á se viu a apertar a corda no pescoço do Sr. . abade, olha que não a apertou à dele! diziam os populares.

Obviamente que o feirante não enforcava o padre, mas sim o busto de homenagem ao padre, mas o certo é que a população só acalmou os ânimos quando o feirante desatou da goela do busto a apertada corda que no entender sobradense apertava era a goela do padre.


sinto-me: angustiada
música: o barulho das pessoas

publicado por estoriasdaminhaterra às 11:28
Terça-feira, 18 de Setembro de 2007

Sobrado é uma terra bizarra. E até mesmo os seus bichos são por vezes bizarros. A estória que conto hoje foi-me contada já há algum tempo ( por quem já não me recordo) mas a seu exagero e claro a imaginação da cena ficaram-me gravadas na memória.

Muito antes do fenómeno da gripe das aves e de se  ter de registar os galináceos  na junta de freguesia e ter de dar baixa do óbito na mesma, Sobrado era uma terra próspera em galináceos bem criados e bem nutridos.

Os bichos lá levavam uma existência pacata, comendo e cacarejando nos muitos galinheiros existentes na vila. A sua existência consistia em engordar ( de preferência sem farinhas) ao ponto de ser uma invejável galinha caseira na hora de esticar o pernil e servir de conduto a quem a havia criado.

A estória de hoje retrata a morte fantástica de uma galinha fantástica, obviamente sobradense .

Depois de pegar o bicho pelo garganil há que a colocar no funil onde se lhe corta a cabeça, colocando-o, de seguida  numa bacia junto com outros cadáveres dos seus congéneres .

Ora acontece que uma das galinhas sobradenses tinha um génio levado da breca, e deu que fazer antes e depois de lhe cortarem o pescoço.

Depois de muito espernear o carrasco lá conseguiu a custo mete-la no funil, o corte da cabeça foi complicado mas lá acabou por pôr termo ao espernear do bicho. Pelo menos pensava o carrasco pois, para seu espanto, quando colocou o corpo ( supostamente) inerte da galinha na bacia, o galináceo levanta-se e desata em correria louca chocando em tudo o que encontrava e mais estranho, contava o matador, cacarejando (!), como que em jeito de protesto. Coisas à Sobrado...

 



publicado por estoriasdaminhaterra às 12:05
Quinta-feira, 13 de Setembro de 2007

Que Sobrado é uma terra rica em estórias já devem ter reparado. São estórias que  na sua maioria retratam a vida social dos seus habitantes com veracidade relativa, no entanto o fantástico e o sobrenatural também têm lugar na imaginação e na vida sobradense . Já tive oportunidade de relatar algumas das estórias que assentam numa matriz fantasiosa e até mesmo sobrenatural, hoje relato mais uma ( bastante recente) daquelas que podem muito bem ser contadas à lareira numa dessas noites de inverno que se nos avizinham...

O cemitério de Sobrado é dividido em duas partes, o novo e o velho. No cemitério velho, o primeiro lanço de campas quando se entra pelo adro, além das normais campas, comuns em qualquer cemitério podemos ver umas poucas " capelas" familiares.

Estas capelas (ou mausoléus ) outrora sinal de riqueza ( hoje mais de vaidade) vão assim " decorando" o cemitério velho e claro alimentando estórias de superstições e coisas de outro mundo.

A estória de hoje é uma dessas. Há cerca de 6 ou 7 anos foi assassinado um bem sucedido empresário sobradense . A família enlutada e ferida com tão inesperada morte decide fazer uma última homenagem ao defunto. Manda construir um mausoléu no cemitério velho, mesmo ao lado de uma outra capelinha existente.

A capela já existente pertencia a um rico lavrador, falecido há bastante tempo e que era conhecido pelo seu mau feitio.

Começadas as obras, o zunzum que se ouviam vozes perto da capela começou a circular pela vila. Vários trolhas se recusaram a ir para a obra á conta das vozes, até que o improvável aconteceu. Andando um dos trolhas a encher a capela do empresário do lado da capela antiga, começa a ouvir uma voz sobre o ombro que subtilmente lhe dizia: " estás a encostar muito as costelas para estas bandas...", o trolha não ligou muito, mas a voz continuou a insistir até que, sem mais nem quando o trolha sente um enorme tabefe fazendo-o cair do andaime.

Não se sabe o que foi, uns dizem que foi o espírito do vizinho da capela nova ( coisa ruim portanto) , outros que foi a imaginação e o medo, o certo é que o trolha apanhou um susto daqueles e  a obra esteve parada bastante tempo até a comunidade se " esquecer" daquele "mau vizinho" e ganhar coragem para finalmente terminar a obra.  


sinto-me: buuuuuuuuuu

publicado por estoriasdaminhaterra às 10:01
Terça-feira, 11 de Setembro de 2007

Sobrado

 

É comum por terras sobradenses ( ricas em água) as casas terem um poço. Embora hoje em dia se utilize mais a água da companhia, os poços têm subsistido. A casa do meu avô não é excepção. Tem um poço ao pé do tanque que é essencialmente utilizado para as regas do quintal. Mas o poço do meu avô não é um poço qualquer, tem uma estória a ele associada, daquelas tipicamente sobradenses .

Conta o meu avô que quando comprou o terreno ( com um pequeno casebre onde viviam dois velhotes entretanto falecidos) a casa já tinha o actual poço.

Dizia-se que o casal, sem filhos, se dava pior que cão e gato, que andavam sempre de candeias ás avessas, e realmente havia de facto vestígios de tão cândida e " serena" relação.

Parece que cada vez que o caldo entornava, o que se sentia primeiramente " atingido" por alguma infamia , vingava-se atirando algum pertence do outro ao poço, que por sua vez também se vingava atirando algo do cônjuge também ao poço. Colheres da sopa, martelos entre outras relíquias foram retirados do fundo do poço da primeira vez que foi afundado. Era a estória a ser levantada do fundo do poço no verdadeiro sentido da palavra. E deviam ter sido bastantes as discussões porque mesmo quase 50 anos depois da primeira obra no poço, foi feita uma outra e ainda se encontraram mais alguns vestígios, entre eles uma concha da sopa toda enferrujada, que foi guardada como " prova do crime". Realmente o ditado tem razão " Olho por olho dente por dente".


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sinto-me: por caminhos do passado
música: Quando a cabeça não tem juízo

publicado por estoriasdaminhaterra às 11:18
Quarta-feira, 05 de Setembro de 2007

Nem sempre acarinhadas, as raposas lá vão subsistindo a grande custo pelos montes sobradenses , indo ,por vezes tentando a sorte ( á falta de alimento nos montes)nos galinheiros, cultivando assim o ódio quase ancestral do homem por este animal.

A estória de hoje passou-se comigo, faz agora um ano. Nunca pensei ter um contacto deste género mas, a natureza por vezes reserva-nos agradáveis surpresas.

O verão costuma convidar a passeios nocturnos pelas ruas da vila. Naquela noite de verão eu e a minha mãe fomos dar uma volta a pé. A noite estava quente e havia muitos grupos de " caminhantes". Já na recta final do trajecto ( perto de casa), um carro passa por nós e mais á frente ouço um barulho estranho. A minha mãe diz que não é nada, mas parece-me ver qualquer coisa no meio da estrada que atravessa o monte. Vou ver. A minha mãe segue-me. Aqueles 50 metros pareceram 50 km ... Mas finalmente percebi o que estava no meio da estrada. Uma raposa. Deitada, de olhos abertos e viva. Já havia algum tempo que a ouvíamos e de tempos a tempos dáva-nos o prazer de a ver ao longe, com duas crias. Foi cuidadosamente colocada na berma. Era linda. Rapidamente corri a chamar um vizinho, para nos ajudar a ver em que estado estava, se tinha algo partido. Ficou imóvel até ele chegar. Acariciamos o sedoso pelo e o fidalgo focinho. Algumas pessoas que por ali passavam pararam a ver e, claro a dar palpites!

- Ah isso é um bicho muito mau, cheira muito mal ( não senti qualquer cheiro), era matá- la que só anda aí a fazer mal! dizia um dos curiosos.

Perante a excitação de estar a tocar num animal selvagem que nunca julguei vir a ter o privilégio de tocar e a ignorância de gerações que se limitam a acreditar no que por aí dizem, dei uma breve explicação ao senhor. Não cheiram mal, estão em vias de extinção, aquela tinha duas crias que precisava alimentar e só vão aos galinheiros porque a base alimentar é frequentemente dizimada por caçadores ( Homens).

Estava tudo bem com a raposa, nada partido, só assustada e nós maravilhados, até que farta de ser o centro das atenções se levantou e correu, a meio parou e olhou para trás, nunca mais me vou esquecer daquele olhar, e penetrou na mata baixa.

Mais tarde soube que tinham matado uma raposa nas imediações, quero acreditar que não foi ela, mas o certo é que nunca mais a vi por aqueles lados.

Ainda hoje quando me lembro da raposa me sinto uma privilegiada , pena tenho que poucos assim pensem e mesmo que sob o manto da ignorância dizimem sem qualquer escrúpulo um animal como a nossa raposa. Será que os meus descendentes terão pelo menos o prazer de poderem dizer que viram uma raposa ou ouviram uma raposa?...

Espero que sim.


sinto-me:
música: Foxtrot

publicado por estoriasdaminhaterra às 16:27
O blogue estoriasdaminhaterra recolhe estórias da tradição oral sobradense bem como factos da vida comum de uma pequena vila dos arredores do Porto...
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