Sexta-feira, 22 de Janeiro de 2010

Que Sobrado é rico em interpretações linguísticas muito características não é novidade para ninguém. É por isso que cada vez mais penso se quando os meus alunos dizem " buber" ou " botar" em vez de " beber" e "deitar" ou "colocar" em vez de os emendar não os  devo incentivar para que o nosso dialecto não morra tão precocemente. Quem sabe se daqui a umas décadas ou a uns séculos não veríamos as nossas típicas expressões transformadas num " mirandês" á sobradense. Estranha mania a nossa de corrigir e criticar pronuncias que nos distinguem dos outros.

 

 

 

Enfim e tudo isto para dizer que esta semana descobri mais uma das nossas pérolas linguísticas. Queixando-se um sobradense que havia cumprimentado o amigo sem que este o tivesse visto, responde-lhe o outro que não levasse a mal pois afinal só conseguia ver vurtos, e que quando o amigo o cumprimentou só viu um vurto com a mão no ar ...

O cómico da situação leva-me a pensar quantos mais vurtos ainda veremos e ouviremos daquilo que um dia foi " falar á sobrado"...

 

Deixo a   lista das minhas pérolas preferidas e o apelo aos leitores de acrescentarem mais algumas que se lembrem ou que usem...

 

auga - água

rigelos - rojões

bubere - beber

bichicoda - laço

manhão - manhã

botar- deitar, colocar algo

baleta - beira da estrada ou caminho

çabola - cebola

coives - couves

celoiras - ceroulas

tchuva - chuva

comixão - comissão

lapes - lápis

quantal - quando tal

aito - oito

abroba - abóbora

entruido - Entrudo

(...)


música: pronucia do norte
sinto-me: mov. salvem a nossa pronuncia

publicado por estoriasdaminhaterra às 15:15
Em sobrado o que me cativou foi a ternura dos diminutivos...pequenico e muitos outros transformados de "inhos" em "icos". Acho lindo mesmo...soa-me de forma muito mais meiga! É sem duvida um regionalismo que não é considerado errado (tal como botar...)
Raquel Alves a 27 de Fevereiro de 2010 às 01:39

Cara dona deste blog!
Foi a primeira vez que escrevi e fi-lo directamente nesta quadrícula minúscula.
Agora ao reler, verifiquei que havia necessidade de algumas correcções ortográficas.
Se publicares agradeço que utilizes a versão seguinte que entretanto corrigi no WORD.
Obrigado

Tchico
Anónimo a 22 de Julho de 2010 às 22:26

Dicionário Sobradês

Como sobradence de gema, apesar de imigrado, tudo o que diga respeito à minha terra tem uma enorme importância (obviamente para mim). Posso confessar que vivo apaixonado por Sobrado e acho que é um amor correspondido, porque grande parte da minha família ainda lá vive e por muitos outros motivos de que destacarei o "nosso S. João". Reparem que não disse "bugiadas ou mouriscadas", porque para nós falar do S. João não é resumi-lo apenas ao dia 24 de Junho. Pensar no S. João ou ouvir o "nosso hino", tocado pela Banda de S. Martinho... até arrepia só de pensar.
Contudo, hoje ao ler o texto que estou a comentar quis, pela primeira vez, participar nestas "modernices" de blogs e sites.
Já por diversas vezes pensei em criar uma espécie de dicionário: Sobradês/Português. Sinceramente é mais um dos motivos de orgulho ouvir alguém, sobretudo os mais idosos ou menos letrados a falar à Sobrado. Tenho pena que, grande parte das pessoas, fiquem envergonhadas com o facto dos filhos, os pais ou amigos estarem a falar da maneira que sabem (à Sobrado) perante estranhos. Não considero que seja sinónimo de parolice. Eu próprio tive dificuldades em adaptar o meu dialecto quando andei na escola primária. Penso que essa dificuldade foi comum a quase todos. Ainda agora os meus filhos me chamam à atenção pela minha pronúncia. Hoje sobretudo a televisão massifica toda a gente e esta malta mais nova já não fala sobradês mas, em contrapartida falam português abrasileirado (influência de telenovelas) e muitos termos em inglês "língua universal" nomeadamente na linguagem informática. Aquilo que vai acontecer ao sobradês, mais tarde ou mais cedo vai acontecer com o português: Não vai passar de um dialecto falado por meia dúzia de velhotes algures numa aldeia recôndita do país a que ainda chamamos Portugal. De resto todos os outros falarão inglês.
Sou a favor da cultura e dos valores positivos e por isso vou ter saudades da minha mãe, que fala correctamente o sobradês e tenho pena que os meus filhos desdenhem esta "cultura".
Vou então tentar contribuir com mais alguns termos de que me lembro. Para começar convém salvaguardar desde já que todas as palavras que tenham a letra"x ou ch" se pronunciam "tch". Isto dá logo uma catrefada delas. Outra característica de sobrado, mas comum à zona do Porto, é os "v" e "b" que se pronunciam sempre como "bês".
Acho que um dos termos referidos "bichicoda", o significado mais comum é para identificar uma "leituga", erva relativamente baixa que se apanhava (capava) para o gado, sobretudo para os coelhos. Aliás, a pronúncia correcta seria "bitchidôdia".
Munho - Moinho
E adei - E portanto
Calitro . Eucalipto
Inchinho - Ancinho
Pói - Pai
Móinh - Mãe
Por hoje vou terminar. Até breve.

Tchico (2010/07/22)
Anónimo a 22 de Julho de 2010 às 22:29

Caro Tchico,
Aproveito antes de mais para pedir desculpas pela atrasada demora na resposta a este tão interessante comentário e agradecer-lhe a partilha que fez. Espero ansiosamente mais palavras ou estórias do nosso sobradense.

Atentamente,
Fábia Pinto


“Ó patrão venha trabalhar”
Vou demonstrar a capacidade criativa, inovadora e inventiva de um bugio, que não consegui identificar, porque trazia a cara tapada, mas que qualquer dos leitores minimamente conhecedor da trama da “dança do cego ou sapateirada” saberá identificar já que o bugio de que falo é o transportador do mocho e da cesta com o calçado do “sapateiro” (das várias personagens intervenientes nesta extraordinária rábula teatral, nunca percebi porque atribuíram esse papel a um bugio, quando todos os outros que representam personagens comuns como, o sapateiro, a mulher, o cego e os moços… trajam à civil!).
Resumindo, o dito “moço” trajado de bugio, além de transportar os apetrechos do sapateiro, teria que lembrar o patrão que devia deixar-se de apartes e regressar à sua faina. A sua fala (texto) seria constantemente: “ó patrão venha trabalhar”.
Tenho a certeza que o “velho da bugiada” tem a noção exacta que, sendo ele a designar quem deveria encarnar aquela personagem, sentiu que era ali que devia apostar tudo e já que não era possível ser ele a assumir aquele papel, porque tinha que estar fresco para a “dança do doce”, seleccionava o mais erudito, o mais letrado, capaz de levar a cabo tarefa tão distinta e nobre. Saliento ainda a modéstia da pessoa em questão que se deixou ficar no anonimato atrás da máscara, não exibindo os seus dotes linguísticos para tirar proveito e se projectar para uma carreira diplomática ou, no mínimo, um importante cargo político. Estes cérebros não devem ficar anónimos, subaproveitados ou mesmo ostracizados, sob pena de prejuízo irreparável para a humanidade.
Qual Camões, qual Eça de Queiroz, qual Fernando Pessoa ou mesmo Saramago, qual Sérgio Godinho (capaz de meter uma frase de dezoito palavras, onde apenas cabiam seis), o nosso herói, com diversas variantes, repetia então a sua deixa em tom audível, um pouco distorcida através da máscara: “Puta que pariu, ó patrão, caralho, venha trabalhar, foda-se”. O tom solene, a entoação final, impaciente, quase ameaçadora, daquele “foooda-se”… é indescritível. Só alguém com uma cultura absolutamente notável conseguiria introduzir termos tão sublimes, sem no entanto retirar à frase a sua essência.
Puta que o pariu!!!
Birabento (2010/07/25)
Anónimo a 25 de Julho de 2010 às 22:45

Caro Birabento ,
De facto uma pérola em estado bruto. Não obstante não posso deixar de rectificar algumas incorrecções . Os trabalhos da tarde ( rituais da lavra da praça e sapateirada ) não são de todo vedados aos bugios, muito menos estas personagens andam á civil, basta apenas reparar no pormenor da máscara. É uma transfiguração do eu, uma outra vertente da bugiada , mais primitiva e que explora os elementos da natureza ( terra, fogo, ar e água).
Quanto á escolha dos "personagens" não cabe ao velho escolhe-las mas sim aos guias e aos rabos, ficando portanto o rei cristão de fora destas lides.
Quanto á habilidade do moço de sapateiro nem sei como lha pinte... com um dos encharcados do sapateiro talvez. Esperemos por próximos moços e textos ad hoc mais rebuscados.

O blogue estoriasdaminhaterra recolhe estórias da tradição oral sobradense bem como factos da vida comum de uma pequena vila dos arredores do Porto...
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