Quinta-feira, 29 de Março de 2007

O Camilo era uma daquelas personagens típicas de Sobrado, daquelas pessoas que independentemente das " patifarias" que façam não deixam de ser queridas pela população.

A primeira lembrança que tenho do Camilo da Pêra é dele e da bicicleta de pedal e do rádio com a cassete do São João virem trazer o Jornal ao meu pai todos os domingos ( Tema para outra história).

As histórias vieram depois, umas atrás das outras durante a minha infância e adolescência até à hora da partida do Camilo ( já na minha idade adulta).

A história que vou contar hoje é uma das partidas que o Camilo pregou à minha família, ao meu avô mais concretamente.

O meu avô caracteriza-se por quatro coisas, o fato preto com um chapeú igualmente preto, o bigode, a estatura e a bicicleta ( usada para ir à missa ). O Camilo caracterizava-se por outras quatro: ser o Camilo da pera, o rádio, a música do são joão e... a bicicleta, esta última uma paixão coincidente com a do meu avô.

O meu avô sempre foi um cristão assíduo às palestras dominicais ( e não só) , ia ( e vai) de bicicleta (bastante mais cedo do que a hora da missa), estaciona o veículo à entrada do adro da igreja, e fica sentado nos bancos da frente. O hábito saiu-lhe caro naquele dia, porque misteriosamente a bicicleta desapareceu do estacionamento habitual e o meu avô veio embora à boleia.

Quem foi, quem não foi, o António Palheira estava intrigado... O meu pai foi dar uma volta de carro a ver se via a bicicleta ( vai que tinha ido dar uma volta sem avisar o dono e se tivesse perdido!). Não encontrou a bicicleta, encontrou o Camilo da pera.

- Oh Camilo não viste a bicicleta do meu pai? Estava no adro e desapareceu. Dou-te mil escudos se a encontrares.

- Eu não a vi, mas eu vi um fulano que, hum ,não sei... Se eu a encontrar, eu digo-te.

A conversa acabou ali, e o meu pai voltou a casa com as mãos a abanar. Mas com a intrinseca certeza que o Camilo " encontraria" a bicicleta.

Dois dias depois ( acho eu que foram), aparece o Camilo, a bicicleta tinha aparecido, deitada num silvado atrás da igreja... Ganhou mil escudos.

O tempo passou, e de vez em quando perguntavamos:

- Oh Camilo foste tu que pegas-te na bicicleta, diz lá...

Ele ria-se e encolhia os ombros, no jeito dele de garoto que é apanhado numa travessura...

Mudava de conversa e estudava a próxima pantomina...



publicado por estoriasdaminhaterra às 15:37
O blogue estoriasdaminhaterra recolhe estórias da tradição oral sobradense bem como factos da vida comum de uma pequena vila dos arredores do Porto...
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